segunda-feira, 23 de novembro de 2020

sorte

 

o rato
menor que a vida
e menor que a morte
tem, muito mais que o homem
a sorte de ter nascido:
por estar vivo
e não poder sabê-lo.

o homem
maior que a vida
e maior que a morte
tem, menos que o gato
a sorte de ter nascido:
por poder matar o rato
e não poder comê-lo.


:: head of a rat catcher | rembrandt | séc. 17 ::

terça-feira, 17 de novembro de 2020

fantasmave

a mãe-da-lua é coruja
corva e carcará,
mede mais de palmo
sem contar o rabo

quando muitas
são uma corja
que se camufla há dois
milhões de anos

quando uma
quando duas
quando quer
parece um pau
e sua cria
 
pedaço de ave parada
longe dos humanos
dentro das humanas
 
foi
não foi
foi
não foi
 
de inveja lançaram
uma história de presságios ruins
anúncios de mãe
 
tudo mentira!
 
em seu voos
de noturnagens
espalha o canto alegre
das mulheres tristes
as falas breves
 
das mulheres céleres:
uma criança no braço
um homem grosso
um cesto de roupas
um osso sujo de carne
para o jantar
 
das mulheres mansas:
um choro fácil
um batom bege
um vestidinho claro
um não que não
se ouve
 
das mulheres fartas:
um martelo frio
uma arte perigosa
um grelo duro
uma outra
mulher macia
 
das mulheres frias:
um caderno aramado
um biscoito velho
uma flor bizarra
uma palavra serve
para enferrujar
 
das mulheres grandes:
um sapato apertado
um cabelo roxo
um brinco no olho
uma bunda gorda
um dedo na cara
contra o mau olhar
 
das mulheres feitas:
uma coxa mole
uma toalha em sangue
um peito cruzado
um fogão sujo
um na pia fode
um útero enorme
onde se nadar
 
foi
não foi
foi
não foi
 
agora vai
─ eu voo vou vejo 
com dois olhos doidos ─
uma revoada
de nyctibiidaes
vassouras e chapéus de couro
fazendo sombra na lua
ou em dias estrelados
─ mas você não vê.
 
foi. foi. foi.

:: urutau ::

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

não sonhei contigo


 
 
 










alguém deve ser
pouco chegado
a generosidades
senão a quem oferecerias
tanto amor, sangue,
sacrifício e cura?

precisas daquele
cheio de facas
e ferrões
para com tuas mãos
precisas, doces
desarmantes
transformares gume
em beijo, abraço.

careces de um cacto
que tenha espinho
para cada poro
teu, macia carne
que geme perdões
na entrada e na saída
quando sorris
ao retirares
gentil
de cada mão tua
de uma cada minha
mão e pés meus
o prego de 6 polegadas
(asteísmo, zombaria).

alguém, por sorte
ou vício
encontras
em meio ao lixo
da deseducação
e paciente,
medicinal
aplicas ternuras
compressas, bálsamos.
ao mesmo tempo
ensinas lições máximas
e mínimas
delicadas
teus olhos preparando
enquanto falas
um tesouro inusitado
de palavras
que também será,
em breve,
lágrimas, afagos.

atiro dardos.
teu coração, teu sexo,
teus olhos, os alvos.
com lança e flecha
e arco e arma
pesada
ataco.
acerto tua boca.
me retornas o falso
frescor de tua dor
ainda morna
atada a um laço
de tinta
não impresso,
um cadáver
que devo adorar
porque assim
tão morto e já
ressuscitado
me libertará
do pesadelo do
pecado, do degredo
desse dia e dos outros
todos
que virão.

se não fosse minha
vaidade
estendida na grama
espessa, no chão
queimado,
não fosse minha
rala ironia, diz-me,
onde irias expor
com zelo
tua hipocrisia - gorda
magra verde
violeta, lírio -
linda! desenhada
à mão?

cada qual com
seu manto tremulante -
a espada da verdade
ainda úmida
de verdades -
brande, brada
a vitória da inocência
da boa vontade
e o bando celebra
não a derrota
dos inimigos - que não são
disso -, mas a glória
e santidade da guerra
que puderam evitar
por serem de mais
longo alcanço
os seus mísseis.

se não fosse eu
ter sido, ter levado
tanta desonra
por existir apenas,
mas também por percorrer
as tendas derramando insultos
contra teu senhor,
desdenhando sábios e guerreiros,
nos heróis cuspindo perdigotos
fartos de vírus, de malícia
e calúnias, profanando a face
que se aproxime ao suficiente
contato - : eu contamino.
se não fosse eu?

se não fosse
ser como eu
ou um, uma,
à minha imagem
e gestos e cores
estapafúrdias
como dormirias
tão boa noite
justa, sono cumprido
para que possas
acordar reluzente
de gratidão ao dia,
mais um em que
dirás ao mundo
do fundo de tua
humildade e
gratidão: é hoje,
amigos.

se não entendes
não te constranjas.
não te concentraste
a sério, não queres
esse rastro de bichos
esse hálito fedido
esse agressivo aceno
tão impudico 

porque és leve,
saudável, espírito
afável que não se curva
à violência
nunca,
não empunhas nunca
nada além do teu
esplendor,
nunca
um grito descabido
nunca
nenhum filtro
sobre teu rosto puro. 
eu entendo.

{pássaros
matinais
na janelinha
do teu
claustro}.

:: the fall of the rebel angels | bruegel, 1562 ::

segunda-feira, 18 de maio de 2020

feminisma













com fala, sem falo
com valentia, sem pressa
com paixão, com desejo

com medo, sem arma
com cor, sem direitos
com bichos, com alma

com frio, sem casa
com sede, sem água
com jeito, com calma

com fome, sem carne
com olhos, sem destino
com espelho, com brilho

com nome, sem voz
com verbo, sem pudor
com grito, com dor

com homem, sem nome
com palavras, sem portas
com raiva, com sangue

com crianças, sem grana
com vontade, sem como
com garras, com asas

com arte, sem terra
com barraco, sem certeza
com carne, com ossos

com luto e luta
com força e coragem
com vida e caminhos
com ela e outras
as mulheres e o mundo
r e xistindo.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

ночной ястреб
















inventar o pássaro
que já existe
e voa raso, medonho
a se arrastar
à noite pelos pastos
ou cortando o vento
com seu rabo
ao
espalhar um grito
escuro

há quem o diga
arauto
do passado
─ impossivelmente ─
e quem o negue
no presente
e no vindouro

um disse que matou
bacurau: esse mente.
ele é feito de desdém-
semente e não se machuca:
se ameaçam bacurau
bacurau respeita
a si, os seus e suas
muito mais que dá vez 
à ameaça

não veste armadura
de seda são suas penas
seu olho vasculha
um voo em curva
lúdica e sangrenta
onde o tempo
derrapa: tão pequeno
pássaro-bacurau
estronda

tão forte é o barulho
que faz pensar que há armas
mas somente há garras
fininhas e seu bico curto

se for caçar um bacurau
vá na paz
que logo virá
porque para todos
os mortos
ela vem
sem rima
sem aviso
sem discurso.

:: para adriane de pássaros ::
:: bacurau ::

sábado, 8 de junho de 2019

serpente e pássaro














os brancos britânicos
os espanhóis espelhados
caçadores do índio incivilizado.
e como se via o pássaro emplumado
ou aquele índio vermelho de barro
diante de si mesmo armado?

os franceses cor de rosa
na maloca, cheirando a purê de mandioca
depois do almoço. depois na rede
fazendo bastardos, misturando gens
fazendo um caldo.

os besteiros portugueses
fazendo as vezes do soldado. mais tarde
os navios carregados: pólvora, sementes,
reses e reses de escravos
que caem nas armadilhas: vêm de luanda,
sofala, moçambique, serra leoa e senegal

para o brasil 
e para as canárias 
e para as antilhas.

lembranças da ilha de bastardia, nas costas ocidentais do oceano


quinta-feira, 6 de junho de 2019

climática


Resultado de imagem para 2001

por que quero permitir à dor
que não existe
criar no vácuo tão concreta
morte? por que ensandecida
não completo a queda e me atiro
ao nada
do difícil trampolim?

rio assim patética
mordendo a tarde, amaldiçoando luas
e planetas, noites que ainda vêm.

ritos de desdém (uma frase amargosa
no canto da boca).

se ninguém compreende, ninguém
mesmo avariada continuo
martelando insensatez
descendo lentamente
      — submarino —
às regiões sem luz e sem sentido.

onde o brilho dos sóis
sob as águas? onde?
onde o fim das paredes desse poço
sem fim? onde
o permeável do outro corpo
se esconde se não há
sentimento que ultrapasse o tecido chumbo
invólucro de ansiedade e tensão?

necessidade de angústia, essa
que me leva para longe
dos humanos e ao mesmo tempo
retém o comum possível
                          da raça.
espécie essa de desígnio que invento
quando o destino é qualquer
                               caverna
absurda, cidade subterrânea, imaginária
feita de sedimento e sombra no futuro inabitável.

quantos animais amanhã em quantos
                                               galhos
fugirão ligeiros à minha presença?
quantos homens e mulheres
dirão adeus da janelinha da nave?
quantas partes estarão faltando
quando os olhos adormecidos
acordarem?