sexta-feira, 11 de outubro de 2019

ночной ястреб
















inventar o pássaro
que já existe
e voa raso, medonho
a se arrastar
à noite pelos pastos
ou cortando o vento
com seu rabo
ao
espalhar um grito
escuro

há quem o diga
arauto
do passado
─ impossivelmente ─
e quem o negue
no presente
e no vindouro

um disse que matou
bacurau: esse mente.
ele é feito de desdém-
semente e não se machuca:
se ameaçam bacurau
bacurau respeita
a si, os seus e suas
muito mais que dá vez 
à ameaça

não veste armadura
de seda são suas penas
seu olho vasculha
um voo em curva
lúdica e sangrenta
onde o tempo
derrapa: tão pequeno
pássaro-bacurau
estronda

tão forte é o barulho
que faz pensar que há armas
mas somente há garras
fininhas e seu bico curto

se for caçar um bacurau
vá na paz
que logo virá
porque para todos
os mortos
ela vem
sem rima
sem aviso
sem discurso.

:: para adriane de pássaros ::
:: bacurau ::

sábado, 8 de junho de 2019

serpente e pássaro














os brancos britânicos
os espanhóis espelhados
caçadores do índio incivilizado.
e como se via o pássaro emplumado
ou aquele índio vermelho de barro
diante de si mesmo armado?

os franceses cor de rosa
na maloca, cheirando a purê de mandioca
depois do almoço. depois na rede
fazendo bastardos, misturando gens
fazendo um caldo.

os besteiros portugueses
fazendo as vezes do soldado. mais tarde
os navios carregados: pólvora, sementes,
reses e reses de escravos
que caem nas armadilhas: vêm de luanda,
sofala, moçambique, serra leoa e senegal

para o brasil 
e para as canárias 
e para as antilhas.

lembranças da ilha de bastardia, nas costas ocidentais do oceano


quinta-feira, 6 de junho de 2019

climática


Resultado de imagem para 2001

por que quero permitir à dor
que não existe
criar no vácuo tão concreta
morte? por que ensandecida
não completo a queda e me atiro
ao nada
do difícil trampolim?

rio assim patética
mordendo a tarde, amaldiçoando luas
e planetas, noites que ainda vêm.

ritos de desdém (uma frase amargosa
no canto da boca).

se ninguém compreende, ninguém
mesmo avariada continuo
martelando insensatez
descendo lentamente
      — submarino —
às regiões sem luz e sem sentido.

onde o brilho dos sóis
sob as águas? onde?
onde o fim das paredes desse poço
sem fim? onde
o permeável do outro corpo
se esconde se não há
sentimento que ultrapasse o tecido chumbo
invólucro de ansiedade e tensão?

necessidade de angústia, essa
que me leva para longe
dos humanos e ao mesmo tempo
retém o comum possível
                          da raça.
espécie essa de desígnio que invento
quando o destino é qualquer
                               caverna
absurda, cidade subterrânea, imaginária
feita de sedimento e sombra no futuro inabitável.

quantos animais amanhã em quantos
                                               galhos
fugirão ligeiros à minha presença?
quantos homens e mulheres
dirão adeus da janelinha da nave?
quantas partes estarão faltando
quando os olhos adormecidos
acordarem?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

foi















vai que no passar das horas
daqui algum tempo, no correr do século vinte e um
me escorra outra vez o suor dos amores trabalhosos,
a aflição dos quase-suicidas, a estupefação dos não-amados
podridão das esperanças, lodaçal insone...

vai que no fugir dos dígitos
daqui a alguns relógios, no gargalo de vidro
a areia meça os dias sem pena e me voltem
as tonturas, as sedes, a seca, o amargor da linguagem
a angústia dos que se esfolam, a indignação dos esquecidos
mormaço e cólicas, coração sem nome...

vai que...

então, por agora, me deixe dizer do que tenho:
tempo de sobra, sombra larga, um havana e espreguiçadeira
marolas e sol e sombra, afagos, nuvens de chuva
que parecem amparos e olhos em silêncio.

então, me perdoem, mas devo dizer enquanto posso
que os ponteiros são amigos, são exatos, correspondem à voz
e à chegada: já não espero em nervo. 
não liguem se na madrugada já não tusso
pulmões dilacerados pela lágrima.

desculpem os excessos de confiança e o desprezo
pelo detalhe, pois que

se parece grande uma tarde de halitose,
óleo nos cabelos e espinhas, se nada é perfeito e ainda
assim o é, se ser é somente deitar ao lado e existir,
esquecer o mastigar e um gesto desamparado no andar
das carruagens, se todos os impedimentos se tornam passagens
livres como um abraço e a cama desaforada,

pois que

se desagrada um mundo inteiro a rabugice de tantos beijos
é porque provavelmente dura pouco esse enlevo – e aqui
toco a madeira com os nós dos dedos e olho para o azul
pedindo longevidade a esta trégua: que dure muito,
ainda é cedo, ainda é eterno, ainda é infinito.

mas vai que....

por isso escrevo essa ode à alegria
capaz de repugnar à pior literatura
e ensejar o nojo de todos os que desconhecem
os benefícios da fluoxetina e do amor correspondido,
o asco daqueles que embora desfrutem de ambos
ainda assim insistem no ditirambo em sua versão trágica.

por isso registro, porque talvez não caiba na flexão dos verbos:
passado, presente e o principalmente-do-futuro.

por isso aproveito o instante final da pétala
sobre a grama, quase estrume. por isso me engano
e por isso sei que não minto. agora.

mas para que não me sinta de todo afastada dos infelizes
para que não achem que dos que sofrem por amor eu faço pouco
(porque faço muito, muito mais do que achava que poderia)
traço essa escritura sem nenhum tempero
nem alho, nem sal, nem canela ou mostarda,
deixo no final desses versos mal-amanhados
apenas o gostinho de algum medo, filho legítimo
das maladies e da crença-freudiana-quase-
insuperável: não se pode ser feliz.

então...
vai que...
por isso...
vamos pedir piedade e ouvir o blues.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

indo















eu quero ir mais longe para o pensamento
e falar como se estivesse maltraduzindo
e ler um, dois, alguns parágrafos de livros
que ao acaso alcanço na rede.

não posso viver dias sem hiperlink. preciso
da viagem à china no século 15 e do geofilósofo de 20 
anos que sabe que a terra é não um lugar morto e gelado
que ocidentais acreditam enlivened somente 
dentro do elaborado pensamento humano.

sou grata ao inventor do scanner e a quem em delicadezas
solta garrafas – com palavras e imagens que se movimentam
dentro desenhadas em folhas e gelatinas que inexistem – nas torrentes.

essas ideias me cobram esperança e eu vejo tudo vivo, 
todas pessoas iguais e impetuosas, impostoras, maravilhadas,
com os cérebros abertos feito romãs maduras,
alegrias de passarinhos.

─ arranjei-te um apelido, bird.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

brownes



campos ônticos mântricos
tontos irmãos monções ventos
a criatividade solta
minotauros alísios libertários
a criativação aberta
cantos irmãos junções talentos
caroldisíacos borgitântricos cortazalados
mallarmentos inscricionários inventalícios
campos irmãos de bacos fertilíssimos
ilimítrofes estroféticos duplamente
espelhosos e não&sim narcísonos
multiplacênticos em sua rareza
os irmãos campos são um achado
e um perdido e um achado etc

haroldo + augusto

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

quarta














vivo em uma margem
– zinha, parca, minha –
que inventei.

vivo na canoazinha
magra, fina que faz água
– justamente é esse meu sustento:
vivo de esvaziá-la.

vivo porque fantasio
que findada a tarde
chegarás com sede
alegre e será tudo pão,
palavra, rio e riso.

por isso vivo.

a terceira margem do rio de nelson